O documentário de Nelson Pereira dos Santos faz jus ao homenageado e enche de beleza os olhos e ouvidos. É para ficar embevecido no cinema, chorar, rir, lembrar-se de toda uma vida: da nossa, dos personagens do filme e de gerações de brasileiros e estrangeiros que amam Tom Jobim. Curioso, é como se lembrássemos do que não chegamos a viver. Há diversos clipes que não conhecia e soaram estranhamente familiares.
Fui sozinha. A experiência me pareceu ainda mais profunda por causa disso. Eu não tinha como olhar para o lado e dizer qualquer adjetivo, compartilhar tudo aquilo. Então as músicas fruíam e me arrebatavam de um jeito inesquecível. Obrigada, Tom Jobim.
Fiquei impressionada com a delicadeza desse videoclipe, a qualidade artística e a criatividade imensa. Dá aquela sensação boa de que sempre é possível fazer as coisas de um outro jeito. Inspirador.
Seguem indicações de filmes extremamente diferentes na temática e na atmosfera, mas que têm no respeito à inteligência do espectador um forte traço em comum. Há o elemento surpresa, a fuga do clichê, algo que não tenho visto com tanta frequência.
O GAROTO DA BICICLETA
A interpretação impecável dos protagonistas é outro ponto forte nos dois longas, sendo que "O garoto da bicicleta" traz um ator mirim fabuloso. Sempre me pergunto como certas crianças podem atuar tão bem e até melhor do que muitos adultos...
Questões como a adoção e, principalmente, a rejeição são abordadas sem pieguice ou eufemismos. Pelo contrário, com um tanto de crueza quando necessário. O final é absolutamente inesperado. Metáfora cirúrgica, que nos faz festejar o quão profundo pode ser o cinema. Sem ser “cabeça”, sem ser chato.
ROMÂNTICOS ANÔNIMOS
O filme celebra o amor sem recorrer a fórmulas desgastadas. Inteligente ao retratar seres tímidos ao extremo que precisam vencer fantasmas arraigados para conseguir, ao menos, se comunicar. Há momentos de uma comicidade tão refinada que desejamos levar aqueles personagens pra casa, como gatos assustados que se gostaria de abrigar numa noite de chuva.
Desejo muita arte na sua vida nesse ano novo. Arte no cotidiano, arte pra combater a inércia, arte pra libertar as amarras, visíveis e invisíveis. Arte sem motivo. Arte pro que você quiser.
O filme aborda temas como o livre-arbítreo, a paixão, a autosabotagem, o poder, o destino, tudo isso temperado com o talento de Matt Damon e Emily Blunt, numa química absurda. Ficção científica da maior qualidade.
"Música de brinquedo" é um trabalho muito especial do Pato Fu. O título se deve à utilização daquelas flautinhas e pianinhos usados pelas crianças em suas primeiras descobertas. A ideia não era produzir um disco infantil, mas um trabalho filtrado por essa sonoridade. Assim foi feito, com um repertório que inclui clássicos do pop nacionais e internacionais. Muito gostoso de ouvir. Segue uma provinha.
Catherine Deneuve vive uma personagem cheia de nuances no filme "Potiche - esposa troféu". A interpretação da protagonista – impecável – deixa a história da aparentemente ingênua Suzanne Pujol e seu clã ainda mais divertida. Não se trata de uma comédia com soluções fáceis, mas daquele humor inteligente, que se vale da paródia em momentos importantes.
Gerard Depardieu e Fabrice Luchini dividem com Deneuve cenas impagáveis. A direção, de François Ozon, é extremamente segura. Dá para sentir desde o início a extrema qualidade do longa, no tipo de experiência cinematográfica da qual sabemos que vamos sair revigorados. E amando ainda mais a sétima arte.
A mostra em homenagem a Abdias Nascimento, escritor, pintor, poeta, dramaturgo, e, claro, um dos expoentes da cultura negra do Brasil, está em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal. "África Brasil - ancestralidade e expressões contemporâneas" apresenta telas de Abdias e objetos que mapeiam suas múltiplas atividades e criações, como o Teatro Experimental do Negro.
Abdias esteve à frente de outras iniciativas pioneiras, como o Museu de Arte Negra, o Teatro do Sentenciado (que funcionou no presídio do Carandiru quando estava preso por episódios de resistência ao racismo), o IPEAFRO, entre outros.
Abdias foi indicado ao Nobel da Paz pela trajetória contínua de lutas em defesa da população afrodescendente. E quem busca fortalecer um povo oprimido defende toda a humanidade, vale sempre lembrar.
Na mostra, obras de mais quatro artistas vinculados a Abdias: o escultor José Heitor da Silva, o pintor Sebastião Januário, o designer Luiz Carlos Gá e o cartunista Maurício Pestana.
O compositor e cantor Manu Chao tem o mérito de apresentar diferentes línguas e gêneros musicais de forma liberta. A mistura inusitada de ingredientes tira o ouvinte do lugar de costume. A vontade de conhecer o artista pode se tornar maior do que qualquer estranhamento, principalmente com certas repetições, efeitos e ruídos – nada gratuitos, diga-se de passagem. É só embarcar na proposta e curtir a ousadia. Ao meu ver, as referências múltiplas dessa caldeirada exótica formam um conjunto muito atraente.
Gosto desse cantor e compositor argentino. Ao mesmo tempo em que tem uma pegada pop, valoriza as raízes da música de seu país. Diego gravou vários gêneros, mas consegue manter um estilo. E vamos combinar, ele é um charme...
O novo filme de Almodóvar – "A pele que habito" – deixa o espectador com uma inquietação bem particular a cada cena e ao enredo, que vai se construindo de forma magistral. Trata-se de um estranhamento que seduz do início ao fim.
O cineasta aborda temas muito atuais e, ao mesmo tempo, é incrivelmente visionário. Os personagens vivenciam situações limite, que, se por um lado nos fazem compreender suas idiossincrasias, não justificam totalmente suas atitudes. Alguma semelhança entre ficção e realidade?
O filme nos faz pensar em ética pessoal e profissional, desejo, perversidade, amor e muito mais.
O protagonista, Antonio Banderas, está impecável; a eterna musa de Almodóvar, Marisa Paredes, fantástica. E a jovem Elena Anaya não deixa nada a dever a esses atores maduros. Ela é tão responsável quanto eles pela excelência do filme.
Primoroso. Tudo funciona bem: roteiro, elenco, música, fotografia. Um filme de arte que mescla humor e lirismo em doses harmônicas. Selton Mello e Paulo José compuseram uma dupla inesquecível de palhaços que também encarnam os papeis de pai e filho. A trupe emociona, sem que o resultado soe piegas. É filme pra ver na tela grande e sair levinho do cinema.
Outro dia li o perfil da escritora e publicitária Tati Bernardes no jornal e fui conferir. A moça é brilhante:
"Volto com o pescoço alongado de tanto perseguir com queixos altivos a sua beleza. Um nem aí escravo. O estivador amendoado não é seguro mesmo dentro de tanta enlouquecedora beleza. Enquanto ele se move de um canto a outro da festa, como dezoito sobremesas de chocolate para não ajoelhar no meio do evento, na frente de todos, e abrir o zíper do estivador amendoado. Sinto espasmos de ataque percorrendo meu corpo. Cada centímetro de mim quer ter boca para degustar cada centímetro do estivador amendoado."
"(...) Eu não sei que cor é essa 'amendoada' mas sei que você é todo dessa cor que não sei direito. A cor de um dia frio com sol. A cor de uma noite com luzes quentes. Eu pagaria imposto a Deus pra ter você em minha casa, eu pagaria imposto ao diabo pra não ter você em minha casa por alguns dias só para me assustar dessa forma, depois, quando você surgisse de novo do alto da escada, perguntando se vou querer pipoca ou chocolate. Você me assusta como deve ser a alguém miserável encontrar um carro forte abandonado..."
Tati Bernardes
O site tem outros textos excelentes e a bibliografia da autora.
De volta à ativa depois de uma virose fortíssima e com outro motivo pra comemorar, além da saúde, é claro. A nossa Escrivaninha completou quase 10.200 visitas só na base do boca a boca. Obrigada, queridos. Prometo continuar com a corda toda. Vamos assoprar as velinhas?
PRESENTINHOS DE ANIVERSÁRIO...
O blog do jornalista Rafael Casé – o Impressões Digitais – é um dos melhores da rede e traz atualizações muito interessantes, como a coloridíssima Feira de Caruaru e a "saliência criativa" de um motel nordestino. Veja uma das fotos:
CONCURSOS LITERÁRIOS
Que tal ter acesso a muitas informações sobre concursos literários em um mesmo lugar? Uma mão na roda para quem gosta de escrever esse blog Concursos Literários... A dica veio do meu amigo Aloisio Latgé.
CLIPES PRA TODOS OS GOSTOS
A linguagem do videoclipe é uma forma de arte, muitas vezes, requintada. Transgressora em tantas outras, ela costuma ser ainda mais atraente quando se consegue conjugar uma fotografia impecável com atuações convincentes ou quando a ousadia fala mais alto que tudo o mais.
Mesmo os clipes mais toscos tecnicamente mexem com a gente, porque marcaram a nossa relação com aquela canção, com aquele tempo. E quantas vezes adoramos uma música, mas não conhecíamos o clipe? Era o meu caso com essa do Tears for Fears. A surpresa foi a melhor possível.