A safra atual de filmes nacionais tem longas excelentes, como o documentário sobre Raul Seixas e "Xingu". Orgulho da cinematografia brasileira. Bom demais ver o cinema lotado pra ouvir e falar das nossas coisas.
Apesar de estarmos em plena era virtual, sou do tempo em que a gente tinha mais contato físico com as pessoas. O famoso "vamos marcar", que significa justamente o oposto, ficou mais acentuado com os novos tempos. A tendência de boa parte é se contentar com os encontros on-line. Prefiro me esforçar para ir na contramão.
A SEPARAÇÃO E AS CANÇÕES
Colaboração da querida Marilene Moura: "Você não escreveu nada sobre dois outros filmes que vi e gostei muito - 'A separação' e 'As canções'. O documentário do Coutinho é uma pequena obra-prima e fiquei triste quando vi que não ficou em cartaz mais do que uma semana. Foi uma triste surpresa porque embora a sessão que assisti não estivesse lotada, dava para sentir pelos comentários na saída que todos tinham gostado muito do filme."
"O filme iraniano, que ganhou o Urso de Ouro de melhor filme em 2011, é muito triste, uma história surpreendente, sobre um casal prestes a separar porque a mulher não quer que a filha cresça no Irã. Gostaria de ler o que pensa sobre ele."
Justo pela restrição de horários aqui no Rio, ainda não assisti "As canções". Pena não ter visto no cinema, mas vou recorrer ao DVD pra suprir essa lacuna. Ouvi críticas muito positivas.
"A separação" é um filme surpreendende em vários sentidos. A história não vai pela condução óbvia. Pelo contrário. Em relação a questões delicadas propostas pelo longa, todos os personagens têm uma ética a ser posta em xeque, ainda que pareçam cheios de razão num primeiro momento. Bacana ver uma cultura tão distinta da nossa com sinais de tensões e rupturas - ainda que sutis - entre a tradição e os novos costumes.
A discussão do espaço da mulher no universo extremamante machista de alguns países do Oriente vale o ingresso. Mas o filme não se restringe a isso. "A separação" também aborda as relações cada vez mais complexas entre homens e mulheres na contemporaneidade, independentemente de véus físicos ou imaginários.
Tem músicas que batem forte desde a primeira vez em que ouvimos. Elas permanecem na nossa memória afetiva de um jeito um tanto misterioso e esse é o grande barato.
Ouvindo Sting na rede, descobri por acaso esse jovem violonista sul-coreano. Aqui vão dois momentos de Sungha Jung: ainda criança e já adolescente. A criaturinha assistia ao pai tocar e um belo dia começou a pegar o "brinquedinho". Olha no que deu...
Curioso é que o instrumento era maior do que ele e precisava ser feito sob medida. E o menino sempre tirou os clássicos do pop-rock "de ouvido" antes de gravar os vídeos domésticos. Mesmo com toda essa habilidade, ele estuda muito e já conseguiu patrocínio de uma empresa alemã para alavancar sua carreira.
O monólogo trata das desventuras de um homem romântico (?!?) e separado que decide virar o jogo e se transformar num cafa de marca maior. Marcelo Serrado deixa o público sem fôlego com uma tirada depois da outra e uma interpretação arrasadora.
Sim, as comédias podem ter cérebro, e essa tem momentos inspirados. Na minha sessão ele fez uma intervenção perfeita, quando associou a alienação de muitos brasileiros ao conhecimento profundo de programas de fofoca da TV, enquanto os Sarneys da vida seguem no cenário político do país, fazendo o quê? Vocês podem imaginar o gesto que Serrado fez...
Existe uma amarração muito bem feita na peça, ainda que o personagem faça apartes recheados de canções e às vezes viaje em memórias um tanto desconexas. Uma amiga sentiu falta de um fio lógico, mas discordo. Simplesmente porque o personagem está vivendo no caos. Quem perdeu o prumo por causa do amor precisa da catarse, pelo menos num primeiro momento. E o monólogo espelha isso com brilhantismo.
O vídeo da ambientalista americana Annie Leonard impactou o mundo e agora tem diversos de seus conceitos aprofundados no livro homônimo, editado pela Zahar. Ouvi falar bastante desse curta, mas só agora tive a chance de ver. Os dados são estarrecedores. O bom é que, apesar do nível de destruição do planeta, a humanidade ainda pode tomar vergonha na cara e correr atrás do prejuízo.
O documentário de Nelson Pereira dos Santos faz jus ao homenageado e enche de beleza os olhos e ouvidos. É para ficar embevecido no cinema, chorar, rir, lembrar-se de toda uma vida: da nossa, dos personagens do filme e de gerações de brasileiros e estrangeiros que amam Tom Jobim. Curioso. É como se lembrássemos do que não chegamos a viver. Há clipes que não conhecia e soaram estranhamente familiares.
Fui sozinha e a experiência me pareceu ainda mais íntima por causa disso. As músicas fluíam como os rios do cancioneiro desse mestre inigualável e me arrebatavam de um jeito inesquecível. Obrigada, Tom Jobim. Obrigada Nelson Pereira dos Santos.
Fiquei impressionada com a delicadeza desse videoclipe, a qualidade artística e a criatividade imensa. Dá aquela sensação boa de que sempre é possível fazer as coisas de um outro jeito. Inspirador.
Seguem indicações de filmes extremamente diferentes na temática e na atmosfera, mas que têm no respeito à inteligência do espectador um forte traço em comum. Há o elemento surpresa, a fuga do clichê, algo que não tenho visto com tanta frequência.
O GAROTO DA BICICLETA
A interpretação impecável dos protagonistas é outro ponto forte nos dois longas, sendo que "O garoto da bicicleta" traz um ator mirim fabuloso. Sempre me pergunto como certas crianças podem atuar tão bem e até melhor do que muitos adultos...
Questões como a adoção e, principalmente, a rejeição são abordadas sem pieguice ou eufemismos. Pelo contrário, com um tanto de crueza quando necessário. O final é absolutamente inesperado. Metáfora cirúrgica, que nos faz festejar o quão profundo pode ser o cinema. Sem ser “cabeça”, sem ser chato.
ROMÂNTICOS ANÔNIMOS
O filme celebra o amor sem recorrer a fórmulas desgastadas. Inteligente ao retratar seres tímidos ao extremo que precisam vencer fantasmas arraigados para conseguir, ao menos, se comunicar. Há momentos de uma comicidade tão refinada que desejamos levar aqueles personagens pra casa, como gatos assustados que se gostaria de abrigar numa noite de chuva.
Desejo muita arte na sua vida nesse ano novo. Arte no cotidiano, arte pra combater a inércia, arte pra libertar as amarras, visíveis e invisíveis. Arte sem motivo. Arte pro que você quiser.
O filme aborda temas como o livre-arbítreo, a paixão, a autosabotagem, o poder, o destino, tudo isso temperado com o talento de Matt Damon e Emily Blunt, numa química absurda. Ficção científica da maior qualidade.
"Música de brinquedo" é um trabalho muito especial do Pato Fu. O título se deve à utilização daquelas flautinhas e pianinhos usados pelas crianças em suas primeiras descobertas. A ideia não era produzir um disco infantil, mas um trabalho filtrado por essa sonoridade. Assim foi feito, com um repertório que inclui clássicos do pop nacionais e internacionais. Muito gostoso de ouvir. Segue uma provinha.